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Como as guerras afetaram as bolsas?




As bolsas de valores são locais onde ativos são negociados. Desde seu surgimento, nos países baixos durante a era do Renascimento, ações, títulos, moedas, derivativos (e qualquer outro item que tenha valor) são trocados nestes locais. Esses “mercados” atraem investidores que buscam aumentar seu capital, seja por meio de uma valorização do seu ativo, ou participação nos lucros deles. Os preços, por sua vez, variam conforme a oferta e demanda desses ativos. Dessa maneira, quanto maior a demanda, maiores serão os seus preços, e vice-versa. Porém, como reagem estes indivíduos quando um conflito ameaça suas possessões e seus lucros futuros? Para realizar tal análise, serão tratados momentos históricos de grandes conflitos desde o século XVIII. Obviamente, uma ênfase será dada às guerras e conflitos do século XX, além de acontecimentos de suma importância nas duas décadas passadas do século XXI. Além de haver maior quantidade de dados sobre o movimento dos mercados nestas ocasiões, tais acontecimentos ocorreram em período de intensa globalização, com intenso fluxo internacional de capitais e, portanto, consequências/crises econômicas de proporções mundiais. Vejamos alguns exemplos a seguir.


A França foi marcada por instabilidades e crises durante o século XVIII. O então Estado absolutista, inspirado por ideais iluministas, passou por uma revolução violenta no ano de 1789 que alterou a ordem vigente no país, comandada por burgueses e pelo povo contra os privilégios da aristocracia da época (nobreza e clero). Durante 10 anos, a nação enfrentou um período violento, do qual o símbolo mais popular era a guilhotina (famoso instrumento de execução utilizado, principalmente, durante o período de Terror da Revolução, durante a “gestão” jacobina). No entanto, o que pode-se dizer sobre o mercado financeiro francês durante o período de conflito revolucionário?


A bolsa de valores francesa foi fundada no ano de 1724. Porém, a negociação de ativos já ocorria bem antes disso, e de uma forma incrivelmente ativa. Porém, no ano de 1793, as negociações foram suspensas, visto que a bolsa parisiense foi fechada, e todas as empresas de joint-stocks, ou seja, empresas de sociedade anônima, em que os sócios detém ações, foram banidas no país. Uma das maiores (senão a maior) empresa negociada na época, a Companhia Francesa das Índias Orientais possuía alto volume negociado no mercado da época. Com o banimento, os oficiais da empresa tentaram liquidar seus ativos (embarcações) para reduzir seu prejuízo, subornando as autoridades. Ao serem descobertos, foram presos e, posteriormente, executados.


Mas e quanto ao preço dos ativos, pós revolução francesa? Junto ao surto inflacionário e desvalorização cambial, ocorridos durante os 7 anos posteriores ao ano de início do levante, notou-se também a perda maciça de valor dos títulos públicos franceses, que fizeram com que investidores buscassem a Inglaterra para futuros investimentos (e morada também). Além disso, o país declarou moratória de suas dívidas, afastando investidores estrangeiros. Somente em 1799, com a chegada de Napoleão, a França teve seu mercado financeiro reestabelecido, com a volta de joint-stocks companies e títulos públicos sólidos. Essas características foram mantidas durante todo o século XIX, até 1914 (veremos posteriormente o porquê), transformando a França em um centro financeiro para todo o Velho Continente.


Já no início do século XX, o dinheiro viajava rápido. Bem mais rápido do que os navios, que cruzavam os oceanos mundiais nas primeiras décadas do século anterior. Na metade do século, o dinheiro levava somente alguns minutos para cruzar grandes distâncias, viajando por cabos submarinos. Com o telégrafo, ordens de compra e venda de ações eram emitidas a milhares de quilômetros de suas bolsas. Agregado a isso, o padrão ouro facilitou trocas realizadas entre moedas distintas, visto que esse permitia uma taxa de câmbio fixa entre os países que o adotaram. Assim, o fluxo contínuo de capital entre diferentes nações somente aumentava com o passar dos anos. Isso ocorreu até o fatídico ano de 1914 quebrar tal crescimento. Vejamos o porquê.


Após o assassinato do arquiduque Franz Ferdinand, do Império Austro-Húngaro, o continente europeu sucumbiu a uma guerra de proporções jamais vistas antes, envolvendo suas maiores nações (militar e economicamente falando). O primeiro ato realizado pelas nações europeias foi de fechar suas bolsas, evitando que houvesse uma maciça fuga de capital internacional. Tal fechamento coletivo jamais havia ocorrido antes. O New York Stock Exchange (NYSE) também fechou por 6 meses naquele ano. Porém, diferente do fechamento visto durante o período da Revolução Francesa, que havia proibido negociações na bolsa da Cidade Luz, este fechamento não proibia negociações entre investidores. Portanto, elas continuaram acontecendo fora de bolsa (no chamado mercado de balcão). Obviamente em menor escala, tendo em vista que o continente europeu presenciava bombardeios, ataques químicos e invasões em seus principais países. Mas como os mercados se comportaram após a reabertura de suas bolsas, ocorrida, salvo devidas exceções, ao final do primeiro ano de guerra?


Quando as negociações na Europa voltaram, certas restrições às negociações de ações e títulos foram impostas. A primeira foi estabelecer um piso ao preço dos ativos, fazendo com que, na reabertura, os preços negociados fossem os mesmos que haviam sido negociados no dia 31 de julho de 1914. Além disso, havia limite em relação ao tamanho do fluxo de capital negociado, evitando grandes fugas, como citado anteriormente. Porém, tais medidas foram suficientes para fazer com que houvesse uma queda nos preços de ativos decorrente do conflito? Logicamente, a resposta é não. Observemos o mercado britânico, por exemplo. Após a reabertura, a bolsa londrina iniciou uma queda no preço de suas ações que atingiria sua mínima somente 3 anos depois, em 1918. Isso ocorreu, basicamente, devido à falta de compradores e ao aumento significativo de títulos de dívida do governo britânico, usados para financiar os gastos com a primeira grande guerra. Mas todas as bolsas caíram durante o período? Ao contrário. Houve um mercado que esteve em alta no momento e consagrou a hegemonia de uma nação no pós-guerra. Analisemos o caso dos Estados Unidos da América.


Mesmo não sendo palco de conflitos durante o combate mundial, os EUA foram afetados pelo sentimento de incerteza que predominava na Europa. Durante o fechamento do NYSE, negociações continuaram ocorrendo (como do outro lado do Oceano Atlântico) e, por dados compilados pelo Global Financial Data, observa-se que o Dow Jones Industrial Average (DJIA), índice formado pelas 30 maiores empresas estadunidenses, apresentou sua mínima no dia 2 de novembro de 1914, precedendo um bull-market (mercado de alta) que ocorreu no ano seguinte. Isso ocorreu pois os investidores entenderam que a guerra seria uma forma de empresas lucrarem com comércio de bens industriais e materiais bélicos. O comportamento do DJIA pode ser melhor entendido por meio do gráfico a seguir:



Ao final do período de combate, houve uma forte queda nos preços das ações estadunidenses, visto que a grande expectativa de lucro citada anteriormente havia sido reprimida por fracos resultados das empresas. Porém, mesmo com tal queda, neste período, os Estados Unidos ganharam importância global, se tornando o principal centro financeiro mundial em detrimento da grave crise econômica que fragilizou a Inglaterra, até então o principal centro do mercado de capitais mundial no período. Assim, observa-se o efeito que a Primeira Guerra Mundial teve nas bolsas ao redor do mundo. Será que, 21 anos depois, quando um novo conflito de proporções mundiais se iniciou, novamente no velho continente, o comportamento dos investidores e governantes foi o mesmo?


A década de 1930 foi extremamente conturbada. Começou com a maior crise que o capitalismo havia visto até então, após o crash da bolsa de Nova York de 1929, que levou o planeta (especialmente EUA e Europa) a uma depressão econômica que durou cerca de 5 anos. Essa profunda baixa econômica enfrentada pelas nações resultou no surgimento e fortalecimento de movimentos radicais nacionalistas, como o nazismo alemão. Tal movimento, liderado por Adolf Hitler, buscou fortalecer a Alemanha nazista (conhecida, na época, por Terceiro Reich), anexando inúmeros países europeus, como a então Checoslováquia, Áustria e Polônia e exterminando povos que não seguissem o padrão ariano de “pureza”. Tais motivos levaram, inicialmente o continente europeu e, posteriormente, países de outros continentes, a sucumbir, em 1939, no maior conflito armado que a humanidade já presenciou. Os EUA, que durante a Primeira Grande Guerra haviam participado de forma discreta, sofreram graves baixas após serem atacados pelos Japoneses do Eixo, aliados dos nazistas alemães e fascistas italianos, em Pearl Harbor. Assim, os estadunidenses entraram, oficialmente, na já declarada guerra ao lado dos países aliados (Inglaterra, França e, posteriormente, União Soviética). Mais uma vez, pergunto-lhe: como os investidores da época reagiram a tamanho combate? Será que as mesmas medidas, tomadas duas décadas antes, foram novamente tomadas?


No ano de 1937, o índice Dow Jones iniciou uma queda vertiginosa. Tendo como fator principal a ascensão de Hitler e suas atitudes no pré-guerra, houve uma preocupação por parte dos investidores de que as atitudes do então chanceler fossem demasiadamente radicais. E assim o foi. A partir de 1939, com as seguidas vitórias dos alemães e seus aliados do eixo, os mercados observaram, inicialmente, quedas nos seus preços, com exceção da bolsa alemã, que estava em uma alta decorrente do boom da produção interna para suprir as necessidades da forte expansão militar. Contudo, o que se observou, em seguida, foi um movimento contrário ao que ocorreu no primeiro grande conflito. A partir do segundo trimestre de 1942, os mercados iniciaram uma reação positiva. O ponto de inflexão para isso foi a vitória estadunidense na Batalha de Midway, levando os EUA a uma campanha de retomada das ilhas do Pacífico e a primeira de muitas grandes derrotas ao eixo. Além disso, os mercados precificaram a expansão alemã como insustentável no longo prazo, elevando as expectativas de uma vitória dos aliados bem antes dela realmente acontecer. Observando o gráfico a seguir, é possível perceber os eventos e a forte retomada no DJIA após a mínima de 1942.




Percebe-se, então, como as principais economias reagiram à Segunda Guerra Mundial. Grandes economias, como Inglaterra e França, sentiram efeitos bem maiores por estarem tão próximos ao campo de batalha. Porém, com as seguidas derrotas, em todas as frentes de combate do Eixo, os mercados iniciaram um período de alta. Ao fim do conflito, em 1945, os dividendos pagos foram os maiores até então, devido ao lucro que as empresas obtiveram com o financiamento do combate. Assim, os mercados durante a Segunda Guerra Mundial não seguiram o mesmo padrão que fora seguido 25 anos antes.

Por fim, neste texto será abordado um último acontecimento de proporções gigantescas. Não foi uma guerra propriamente dita, mas gerou um conflito e consequências adversas sentidas até os dias de hoje. No dia 11 de setembro de 2001, duas aeronaves (da United Airlines e da American Airlines) se chocaram contra o World Trade Center, torres icônicas situadas ao sul da ilha de Manhattan. Simultaneamente, uma outra aeronave da American se chocou contra o prédio do Pentágono e uma outra da United caiu em um campo, na cidade de Shanksville, no estado da Pennsylvania. O que ocorria naquela manhã de verão era o maior atentado contra os EUA que já havia ocorrido. Terroristas do grupo extremista Al-Qaeda, liderados por Osama Bin-Laden, se responsabilizaram pelo ataque que tirou quase 3000 vidas. Os estadunidenses foram atacados em sua própria nação, em um ataque que revelou falhas gravíssimas de segurança nacional. Dessa forma, como os mercados mundiais e, em especial, a NYSE, reagiram à queda das Torres Gêmeas?


Após o ataque, a NYSE e a Nasdaq (bolsa de empresas de tecnologia) foram fechadas por 6 dias, buscando evitar o caos e as vendas causadas por pânico. Porém, ao reabrir, no dia 17 de setembro daquele ano, o mercado teve uma queda de 7,1% (maior queda até então). Ao final da semana de reabertura, o DJIA apresentava queda de 14% e o S&P500 (índice das 500 ações selecionadas pela Standard and Poor’s) perdia 11,6% de seu valor, mostrando o sentimento de medo predominante entre os investidores. Outro indício desse sentimento foi o aumento repentino no valor do ouro, que saltou de US$215,50 a onça para US$287. Será que esse sentimento generalizado perdurou por muito tempo, alterando totalmente a forma como os investidores enxergavam os EUA? A resposta, obviamente, é não. Menos de um mês após o atentado, os preços dos ativos retornaram aos seus valores anteriores ao dia 11 de setembro. Certos setores foram mais afetados, como o aéreo e o setor de seguros. Porém o maior impacto sentido foi o aumento da dívida pública estadunidense, usada para financiar a Guerra ao Terror (campanha militar dos EUA, liderada por George W. Bush contra, majoritariamente, Iraque e Afeganistão). Assim, o ataque promovido pela Al-Qaeda gerou consequências que são sentidas até os dias de hoje.


Nota-se, observando a história, que os eventos são únicos tais quais são seus efeitos, porém há similaridade no comportamento humano. Uma coisa que pode-se afirmar, com certeza, é que os investidores buscam sempre aumentar seus lucros até mesmo em situações conturbadas e trágicas. Este comportamento pode ser notado na história em inúmeras ocasiões e poderá ser esperado, novamente, em momentos futuros.


Escrito por: João Lucas Rossi Mazzoni