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Trade War- Entenda a briga de gigantes que vem ditando os rumos da economia mundial

A Guerra Comercial refere-se à disputa entre China e Estados Unidos nos últimos anos. Desde 2018, com o início do conflito, foram impostas tarifas, sanções, troca de ameaças, tentativas de negociações e acordo entre as duas potências, mas estamos longe de ver uma solução para essa questão.

Entretanto, desde o início, esse duelo, não se limitou às relações comerciais, mas expandiu-se para o domínio geopolítico das duas nações; e com a chegada do COVID-19, essa situação se acentuou, refletindo-se nos acontecimentos mais recentes envolvendo os dois países.

Mas essa briga de gigantes não começa em 2018! Nesse Explicaê, será mostrado como essa guerra surgiu e todos os fatos que abalaram os canais de notícias no final desta década.

Antes de tudo, é preciso ressaltar que toda discussão sobre a ameaça da economia chinesa e sobre a dependência e inter relação entre as economias da China e dos EUA se dão a partir de 2001, ano no qual a China entrou oficialmente para a Organização Mundial do Comércio (OMC). Em 2010, pelo crescimento acelerado, com histórico de 6% do PIB ao ano, o país asiático saltou para a segunda maior economia no ranking mundial, atrás justamente dos Estados Unidos. Esse avanço abala a posição do país norte-americano no topo do sistema internacional e coloca em xeque o pensamento de “indiscutível potência hegemônica”.

Apesar da ameaça econômica, esta não é a única motivação das medidas adotadas pelos EUA nos últimos anos.

A 1ª economia mundial sempre teve um déficit comercial em relação às exportações com o gigante asiático, e isso não era um problema para os americanos. As empresas americanas instalaram filiais na China, em razão da mão de obra e preços baixos, e exportavam de volta para os EUA. No entanto, com o crescente aumento de investimentos em tecnologia e comércio da China, as americanas acabaram perdendo competitividade.




Além disso, de acordo com Dean Cheng - conservador e pesquisador na Heritage Foundation - essa transferência de produção custou um valor de aproximadamente U$1,2 bilhão da propriedade intelectual, a qual ele classifica como roubada.

Posto isso, conhecido como o “choque da China”, o resultado desse processo foi o aumento da taxa de desemprego e o fechamento de fábricas nos EUA, principalmente nos “estados do cinturão da ferrugem” (que votaram no atual presidente Donald Trump em 2016).

Segundo Ray Bowen - analista econômico do governo dos EUA de 2001 a 2018 - “Os benefícios econômicos prometidos pela China ao ingressar na OMC nunca se concretizaram [...] É mais o caso da China querer ingressar em fóruns multilaterais para mudar a forma como esses fóruns regulam o comércio global”.

Esta é talvez a principal razão de desgaste das relações entre a China e os Estados Unidos.

Nesse cenário instável entre as duas economias, o presidente Donald Trump foi o catalisador para o início da chamada “Trade War”. Desde a sua campanha eleitoral, como uma de suas principais bandeiras, o republicano vinha atacando as importações chinesas e responsabilizando o país oriental pela perda de empregos industriais nos Estados Unidos.


Como prometido, em 2018, Trump iniciou a imposição de diversas taxas sobre as importações - com destaque para as tarifas de março de 25 e 10% sobre todas as importações de aço e alumínio - que afetaram diretamente a China.

Como resposta, em abril, o Ministério do Comércio da China, impôs tarifas no valor de U$3 bilhões sobre 128 produtos estadunidenses. O que se seguiu ao longo do ano fora uma longa série de episódios envolvendo novas tarifas, retaliações e ameaças por ambas as partes.

Contudo, em dezembro de 2018, iniciaram-se as primeiras negociações de 90 dias que resultaram, em janeiro de 2019, na primeira fase de um pacto para colocar fim na guerra comercial. Essa trégua durou pouco, visto que, em maio, os EUA anunciaram mais uma rodada de tarifações.

Ao que se seguiu o ano de 2019, em resposta a novas tarifações dos EUA, a moeda chinesa (yuan) passou por uma forte desvalorização em Agosto, superando o nível de ¥/US$7,00. De acordo com o Banco Central chinês, a medida foi “impulsionada pelo unilateralismo e medidas de protecionismo comercial e a imposição de tarifas sobre a China”.

Segundo o diretor da corretora Mirae Asset, Pablo Spyer, “Ao desvalorizar sua moeda [...], o governo chinês faz seus produtos ficarem mais baratos e mais competitivos, pegando em cheio a economia americana”.

Essa medida trouxe risco e incerteza aos mercados financeiros. Consequentemente, reverberou negativamente nos mercados, com queda das Bolsas pelo mundo, como em Londres, na França e nos EUA. Observou-se queda no índice Dow Jones, S&P, além dos índices na própria região asiática: em Tóquio, Hong Kong, Xangai e Sydney. Esse aumento de incerteza levou à fuga de investidores para moedas fortes, como o dólar - teve valorização alta perante o real.


Em meio a essa euforia, em Maio de 2019, outro evento fortaleceu essa rivalidade: os Estados Unidos colocaram a Huawei, fabricante chinesa de equipamentos de telecomunicações, em uma “lista negra” de comércio. Dessa forma, a aquisição de componentes de empresas norte americanas pela Huawei foi dificultada e as vendas de alguns produtos da empresa chinesa foram prejudicadas, em função da dependência de fornecedores dos EUA.

Nesse contexto, a justificativa dada pelos americanos remete a anos de acusações de espionagem por parte da Huawei, que foi considerada empresa de ameaça à segurança do país.

Os argumentos estão relacionados a oportunidade que, tanto os terminais e redes de 5G quanto os smartphones desenvolvidos pela empresa oferecem para o governo chinês acessar a rede do país.

Publicamente, os EUA nunca apresentaram provas que sustentem este argumento.

Em Pequim, essa ação é vista como uma tentativa de neutralizar um competidor.

Atualmente, apesar de flexibilizações das negociações entre a líder global na definição de padrões do 5G e empresas americanas, a Huawei ainda enfrenta uma série de restrições impostas pelo governo dos EUA que proíbem empresas não americanas de vender chip produzidos com tecnologia americana para a Huawei (sem uma licença especial).

Ademais, justamente em 2020, a pandemia do coronavírus intensificou as tensões entre as duas nações. Durante esse ano, o presidente Donald Trump, em seu Twitter,se referiu diversas vezes à COVID-19 como o “vírus chinês”. Também, alegou que o vírus se originou em um laboratório da China, argumento negado pelos próprios oficiais de inteligência americana, e que o país asiático causou “grande dano” ao mundo.

“A China causou grande dano aos Estado Unidos e ao resto do mundo” - Trump em seu Twitter, sem se referir diretamente à pandemia.

Esses ataques do republicano reforçam o argumento de que a guerra se estendeu aos limites comerciais desde o início: é uma guerra comercial, geopolítica e ideológica.

Além de tudo, em julho de 2020, a situação se agravou, quando os Estados Unidos ordenaram que a China fechasse o consulado de Houston, no Texas, após a publicação de um vídeo mostrando indivíduos queimando papel em caixas no pátio do edifício do consulado chinês.

As alegações americanas se basearam nas acusações de espionagem de pesquisas médicas relacionadas ao desenvolvimento de vacinas no território estadunidense.

Enquanto o Departamento de Estado norte americano alegava que a decisão fora tomada para proteção da propriedade intelectual americana, o Ministério das Relações Exteriores da China afirmava que a medida era “ultrajante e injustificada”.

Por conseguinte, com a medida, classificada pela China como “uma escalada sem precedentes” e “ataques injustificáveis”, o país ordenou a suspensão das atividades americanas no consulado de Chengdu. Segundo a chancelaria chinesa, “uma resposta legítima e necessária à medida injustificada dos EUA”.

Mas não para por aí! Logo em seguida, em Agosto, o mundo observou as sanções americanas sobre as autoridades de Hong Kong após a imposição, em Pequim, de uma lei de segurança que dá aos chineses mais controle sobre o território.

A proposta dessa lei - justificada pelas autoridades chinesas como necessária para tapar brechas de segurança e restaurar estabilidade - poderia expor a população a julgamentos injustos e tratamentos violentos, segundo críticos, além de proporcionar à China maior influência sobre Hong Kong. Resultado: protestos de milhares de pessoas nas ruas contra a lei.

Seguido de críticas pelos EUA, Reino Unido e por outros países ocidentais por violar o alto grau de autonomia de Hong Kong, Trump respondeu com uma lei oficializada que impõe sanções para pessoas ou entidades consideradas pelo governo contribuidoras para o desgaste da autonomia de Hong Kong.

Toda essa ofensiva contra a China desenrolou-se depois que Trump assinou uma ordem executiva que proibiria o aplicativo “Tik Tok” de operar nos Estados Unidos, caso não fosse vendido pela empresa chinesa ByteDance. E é visto novamente a mesma justificativa: o aplicativo é uma ameaça à economia e à segurança nacional.

Sendo assim, o mais recente caso do “Tik Tok” remete a todos os conflitos entre os países. Por um lado, os EUA alega que o aplicativo de vídeos curtos coleta uma grande quantidade de dados e que a ByteDance pode ser obrigada pelo governo chinês, de acordo com as leis locais, a entregar dados sobre os usuários. Por outro lado, a China diz que os Estados Unidos estão usando a segurança nacional como desculpa e estão desfrutando do poder para oprimir empresas não norte-americanas.

Assim, esse cenário mostra uma potência estadunidense decadente com o objetivo de impedir a ascensão do gigante asiático. Logo, essa competição se repete diariamente nos diversos ramos das relações, mas com a mesma essência: uma nova ameaça crescente e assertiva que vem aumentando sua influência mundial, contra um país ameaçado em seus interesses estratégicos e comerciais. Entretanto, com suas economias fortemente interligadas, um desgaste seria “pouco prático” como disse o ministro Chinês Wang. “A guerra comercial teve pouco impacto real na economia chinesa”, mas acrescenta que “A imagem que costumávamos (povo chinês) ter dos Estados Unidos - democracia, liberdade, abertura [...] - essa imagem positiva desapareceu”.

Autor: Murilo Nassur Vioti.

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