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Economia da América Latina pós pandemia

Com o avanço da vacinação contra a COVID-19 e a flexibilização das medidas preventivas pandêmicas o mundo todo começou a se perguntar sobre o “novo normal”. Como serão as retomadas às atividades? Como o período passado nesta crise irá afetar a rotina de todos? De igual maneira surge a pergunta: Como a pandemia afetou a economia dos países emergentes da América Latina? Quais estão sendo as medidas tomadas pelos governos para que se possa viver o “novo normal” parecido com o período pré-COVID?

Representação artística - America Latina [WallpaperAccess]

De acordo com a CEPAL (Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe) o trabalho a ser realizado é um caminho longo e preocupante, uma vez que olhando para o cenário internacional de investimentos durante o primeiro ano da pandemia, as empresas multinacionais concentraram-se em fortalecer as cadeias de valor para poder evitar, no futuro, interrupções como as provocadas pelas medidas restritivas, uma das decisões mais seguras de se alcançar este objetivo é a tendência em investir em países desenvolvidos. Isso resultou em uma redução do investimento na maioria dos países da América Latina, exceto México, Paraguai, Equador e as ilhas caribenhas de Barbados e Bahamas. A queda ao olhar para a América Latina como um todo está alinhada com o cenário mundial no qual em 2020, a contração do investimento estrangeiro direto, que se caracteriza por ter fins empresariais e não só financeiros, foi de 35% em todo o mundo. Na América Latina chegou a níveis de uma década atrás com as empresas transnacionais parando de investir na região, somente no Brasil a queda de aporte estrangeiro foi de 35,4%, pior patamar em 12 anos. No que tange às transnacionais latino-americanas o cenário também é de colapso, com queda de 73% nos investimentos.

Ao mudarmos o foco para o cenário interno dos países, a situação fica ainda mais alarmante uma vez que os governos na América Latina, em seu conjunto, gastaram mais em 2020 do que já foi visto, pelo menos, desde que esses dados começaram a ser registrados em 1950. As despesas públicas, ou seja, o gasto dos governos centrais, chegaram a 24,7% do Produto Interno Bruto (PIB) regional em 2020, nível mais alto desde que os dados fiscais compreensíveis começaram a ser publicados, informou a organização. A última vez que se chegou a um nível semelhante foi em 1983, durante a crise da dívida.

No fechamento do ano, diz a Cepal, as contas fiscais da região apresentavam “déficits significativos”, chegando, em média, a 6,9% negativos do PIB. Mais do que uma contração na renda pública, em forma de impostos e de outro tipo, o aumento na dívida se deve ao investimento feito em muitos países para combater o impacto da crise econômica ocasionada pelos confinamentos obrigatórios da pandemia.

A Cepal em conjunto com a Organização Internacional do Trabalho (OIT), publicou sua obra especial "Situação do trabalho na América Latina e no Caribe (junho de 2021)", através da qual os efeitos da crise provocada pela Covid-19 no principais indicadores do mercado de trabalho em 2020.

O documento afirma que os maiores impactos foram observados durante o segundo trimestre do ano passado, quando se iniciou a implementação de medidas de confinamento e contenção da pandemia. Essas medidas produziram uma queda acentuada da atividade econômica, do emprego e das horas trabalhadas. É estimado que a taxa de desemprego passou de 8,1% em 2019 a 10,7% em 2020, em grande parte pelo “fechamento maciço de empresas, particularmente de micro, pequenas e médias empresas”. Isso, junto com a queda do rendimento dos lares, gerou “um aumento sem precedentes” na pobreza. A taxa de pobreza aumentou de 30,5% em 2019 a 33,7% em 2020, e a de pobreza extrema passou de 11,3% a 12,5%.

Muitos trabalhadores, principalmente os informais, não conseguiram dar continuidade ao seu trabalho produtivo e foram obrigados a se retirar do mercado, impossibilitando a geração de renda para suas casas e a atuação anticíclica como nas crises anteriores. Da mesma forma, o fechamento de serviços de atendimento e escolas implicou em uma carga de trabalho pesada dentro das residências, geralmente desigualmente distribuída, sobrecarregando principalmente as mulheres.

A fim de promover mudanças neste cenário, é necessário abranger três áreas principais: Produtividade e criação de empregos; melhora nos sistemas educacionais e de saúde; e uma agenda para o crescimento sustentável.

Ainda que seja um desafio a questão de produtividade e criação de empregos pode ser incentivada através de um grande impulso de um setor privado dinâmico em um ambiente de negócios favorável aos investimentos. Ao integrar as cadeias globais de valor, é possível criar rapidamente oportunidades de trabalho e avenidas para o progresso de muitas pessoas. Sob o contexto internacional é possível aproveitar-se da demanda dos Estados Unidos e da China, uma vez que com isso foi criado um cenário mais competitivo e portanto, mais atrativo.

No âmbito de melhora dos sistemas educacionais e de saúde é importante ter a visão de recuperação do aprendizado perdido no período epidêmico, traçando planos bem estruturados tanto para a saúde básica, quanto para a estruturação técnica e desenvolvimento profissional, para que não haja uma discrepância ainda maior no aprendizado da população carente em relação à população abastada, criando pessoas capazes para os empregos previamente criados no tópico anterior. Quanto aos sistemas de saúde é necessário aprender com os erros que os colocaram no limite de suas capacidades para que uma reestruturação seja feita de maneira adequada ao tratamento da população, podendo fazer o uso do avanço tecnológico.

Por último, a recuperação deve incluir uma agenda para o crescimento sustentável que trate do problema da mudança climática bem como da necessidade de aproveitar e proteger a riqueza dos recursos naturais. Aqui é importante investir em energia renovável e repensar os subsídios ao combustível fóssil.

Para que ainda haja razões para acreditar, a Cepal publicou um relatório sobre possíveis efeitos positivos da demanda externa e dos preços de commodities, no qual revisa para cima sua projeção para crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) da América Latina e o Caribe neste ano, a 5,9%. Em julho, a expectativa era de 5,2%. Elevando também a projeção para alguns países tais como:

  • No caso do Brasil, a Cepal espera crescimento econômico de 5,2% neste ano e de 2,2% no seguinte.

  • Para a Argentina, a expectativa é de avanços de 7,5% e 2,7%, respectivamente.

  • Em toda a América do Sul, a Comissão espera alta do PIB de 5,9% em 2021 e de 2,6% em 2022.

  • Para o Chile, a Cepal projeta crescimento de 9,2% neste ano e de 3,2% em 2022.

  • No caso do México, espera altas de 6,2% e 3,2%





Autor: Paulo Tognolo | linkedin






Referências


[1] https://brasil.elpais.com/economia/2021-08-06/investimento-estrangeiro-direto-na-america-latina-cai-para-niveis-de-uma-decadas-atras-devido-a-pandemia.html


[2]

https://brasil.elpais.com/economia/2021-04-21/cepal-recomenda-priorizar-a-protecao-social-universal-na-america-latina.html


[3] https://www.poder360.com.br/opiniao/economia/america-latina-e-caribe-devem-buscar-crescimento-com-equidade-no-pos-pandemia-escreve-carlos-felipe-jaramillo/


[4] https://www.istoedinheiro.com.br/cepal-eleva-projecao-para-crescimento-do-pib-da-america-latina-em-2021-para-59/


[5] https://www.eluniversal.com/economia/99413/cepal-el-mercado-laboral-tendra-una-lenta-recuperacion-frente-a-los-estragos-de-la-pandemia