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Dólar acima de 5

Saber quanto está a cotação do dólar geralmente só nos chama a atenção quando pensamos em viajar, comprar algo importado ou investir no exterior. É só nesse momento que procuramos entender quantos reais precisamos para comprar 1 dólar – e muitas vezes nos surpreendemos! Já se foi o tempo em que ir para os Estados Unidos era sinônimo de receber várias encomendas dos familiares e amigos, pois o preço era imbatível. Hoje, pela alta do dólar (que já vem aumentando há um tempo), comprar fora já não é mais tão atrativo assim.



Mesmo que só nos interessemos pelo preço do dólar em alguns momentos, ele influencia diretamente o nosso dia a dia e é muito importante saber os impactos que a crescente elevação do seu preço tem em nossas vidas. Principalmente agora, com o dólar superando os temidos 5 reais.


Qual o impacto da alta do dólar no meu dia a dia?


A relação dos produtos consumidos no Brasil com o dólar é mais estreita do que aparenta. Por exemplo, o pão que a maioria dos brasileiros consome todos os dias é produzido por aqui. Todavia, o trigo, que é um insumo básico para a produção dos pães, é importado. Dessa forma, uma valorização do dólar pode acarretar na alta do preço do pão para o consumidor final.


Há outros casos nos quais essa relação é mais direta. É o caso de produtos eletrônicos, como celulares e computadores. Esses itens são produzidos no exterior e o produto final é importado pelo Brasil.


O preço da gasolina é outro fator que sofre influência do dólar, por ser influenciada pela variação da cotação internacional do barril de petróleo e pela variação da moeda americana, quando há um aumento no dólar, esse aumento será repassado no preço final da gasolina nos postos de abastecimento.


E como o dólar chegou até os 5 reais?


Desde o final do ano passado, o nosso Ministro da Economia, Paulo Guedes, coleciona declarações polêmicas sobre o câmbio. Em novembro, embalado pelo sucesso da reforma da Previdência, disse que, caso a moeda americana, então na faixa dos 4 reais, chegasse ao valor de 5 reais, seria um grande negócio para o Brasil.


Três meses depois, em 12 de fevereiro, com a cotação em 4,35 reais, disparou a desastrada comparação em que chamava os tempos de dólar a 1,80 real de “festa danada”, com “empregada doméstica indo para Disney”.


Em março, quando o valor girava nos 4,66 reais, afirmou que os 5 reais só seriam alcançados se ele fizesse “muita besteira”. E foi no dia 13 de maio que o dólar chegou a bater 5,97 durante o pregão, fechando na máxima de 5,88 reais.


Figura 1 - Cotação dólar/real

(#PraCegoVer: A figura mostra a cotação do Dólar em relação ao Real, a qual saiu de uma faixa de R$4,00 em novembro de 2019 para R$5,60 em setembro de 2020.)



Entre os maiores motivos para a disparada do dólar se encontram: a instabilidade que o Brasil atravessa e a incapacidade do governo federal de gerir a crise sanitária decorrente da Covid-19, o que leva a uma grande crise de confiança no país.


A perspectiva de efeitos devastadores da pandemia do Corona vírus sobre a economia levou os investidores, em meados de março, a tomarem o caminho que se faz em momentos de crise: buscar segurança. No campo dos investimentos, isso significa ir atrás do que é o porto seguro: o dólar.


Com os problemas que estamos enfrentando e a taxa de juros aos 2% ao ano, os estrangeiros que nos viam como uma possibilidade de diversificação de portfólio estão migrando seus investimentos para países menos arriscados: houve uma saída do equivalente a 72,9 bilhões de reais em capital estrangeiro entre 1º de janeiro e 8 de maio deste ano, apenas do Brasil. Porém, quase todas as moedas relevantes para o comércio internacional têm sofrido com esse fenômeno.


Além de todo o cenário da pandemia em si, a deterioração do ambiente político associada à forma errática com que o governo vem conduzindo o combate ao Corona vírus é o principal fator para o desnível cambial. Temos observado um aumento nos gastos públicos para o enfrentamento da crise sanitária com estímulos à retomada, mas vêm sido gastos mal direcionados que acrescentam um elemento extra às dificuldades. Tudo isso, trouxe uma grande preocupação dos investidores sobre a questão fiscal brasileira.


Ainda no âmbito governamental, as polêmicas envolvendo o presidente do Brasil e outras autoridade colaboram para deteriorarem a nossa imagem frente aos investidores. Desde situações envolvendo queimadas, até declarações em relação ao tratamento de Covid-19 usando cloroquina, deixam o país mais frágil.

Mas o dólar vai abaixar dos 5?


Já em julho, no entanto, a moeda americana enfraqueceu - mesmo em um contexto de incertezas, em que ninguém consegue prever o tamanho da crise que o vírus vai deixar. As taxas de infecção de Corona vírus, resultados econômicos ruins e incertezas com relação às eleições presidenciais dos Estados Unidos estão entre as razões do fraco desempenho do dólar nas últimas semanas, trazendo algumas dúvidas em relação a retomada econômica do país.



Os Estados Unidos divulgaram no fim de julho que o PIB do país despencou: houve uma queda de 9,5% no segundo trimestre em relação ao primeiro. Na comparação anual, a retração foi de 32,9%. Além disso, os dados de atividade, que surpreenderam em um primeiro momento, tiveram leve ressaca, mostrando que a recuperação não será tão fácil como foi imaginada: causando um movimento de reprecificação do dólar atrelado a isso.


Outro fator de instabilidade, segundo os economistas, é a eleição americana. Donald Trump, atual presidente e candidato à reeleição pelo partido Republicano, mostra sua indignação às condições das eleições deste ano:


“Com a votação universal por correio, 2020 será a eleição mais imprecisa e fraudulenta da história. Será um grande constrangimento para os Estados Unidos. Adiar a eleição até que as pessoas possam votar de maneira adequada, segura e protegida???", postou o presidente no Twitter, sem acrescentar qualquer prova do que estava dizendo.


Quanto mais estreita a margem do resultado da eleição, maior a chance de crise constitucional neste país, porque Trump claramente vai questionar o resultado das eleições e jogar este país numa crise constitucional, considerando um cenário de vitória do democrata Joe Biden.


E mesmo com todo esse movimento que desvaloriza a moeda dos Estados Unidos, o cenário brasileiro continua preocupante, principalmente em questões fiscais e pela baixa taxa de juros, o que ainda não se faz suficiente para atrair investidores e conter a alta da moeda americana. O último Boletim Focus, do Banco Central, indicou que o dólar apenas cairá do patamar de 5 reais em 2022.


Se os Estados Unidos lideram o ranking de mortes e casos confirmados de Covid-19, o Brasil é o segundo da lista - e sem as condições financeiras da maior economia do mundo para lidar com essa crise.


Como estamos vivendo um contexto de incerteza global, é muito difícil prever o que ocorrerá com os países e suas moedas, mas uma coisa pode ser confirmada: quem mostrar resultados sólidos primeiro, vai sair ganhando.


Autora: Thaisa Argento Martins (LMF São Carlos - USP e UFSCar)

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E-mail: thaisaargentomartins@gmail.com


Data da publicação: 22/10/2020

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