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Angela Merkel e seu legado na Europa


A primeira-ministra em discursos de Ano Novo entre 2005 e 2019


"Querida Merkel, você é a primeira mulher eleita para ser chefe de governo na Alemanha. Um sinal forte para as mulheres, e certamente para alguns homens."


Foi assim que o então presidente do Parlamento alemão, Norbert Lammert, anunciou, em 22 de novembro de 2005, o resultado da votação entre os parlamentares alemães: Angela Merkel foi escolhida para comandar a Alemanha. Era a primeira mulher a se tornar chanceler no país, representando a União Democrata-Cristã (CDU na sigla em alemão), um partido socialmente conservador.


Afinal, quem é Angela Merkel?


Na Alemanha Oriental, onde nasceu e viveu por 35 anos de sua vida, Angela Merkel era uma pesquisadora com Ph.D. em química. Sonhava em conhecer a Califórnia, mas jamais tinha ido mais longe do que a Hungria. Tinha sete anos quando o Muro de Berlim foi construído e, por isso cresceu em uma sociedade paranóica, em que uma parcela significativa da população denunciava os vizinhos para o governo, de domínio soviético. Tudo isso mudou em 1989.


Com a queda do muro e a reunificação da Alemanha, Angela se tornou uma referência política. Foi ministra das Mulheres e da Juventude entre 1991 e 1994, quando mudou para o Ministério do Meio Ambiente, onde ficou até 1998. Seu partido, a União Democrata Cristã, deixou então o poder. Merkel se tornou a chefe do grupo em 2000. Em 2005, conseguiu se tornar a primeira-ministra da Alemanha. E em 2017, foi reeleita para seu quarto mandato. Mas, apesar de quase dezesseis anos no poder, a primeira-ministra anunciou em 2018 que não tentaria um quinto mandato depois de 2021.


A fotógrafa Herlinde Koelbl retratou Angela Merkel durante anos, a partir de 1991. A moça do Leste que estreava na política da Alemanha reunificada ganhou confiança, mas nunca aparentou vaidade. O jeito de pessoa comum é um trunfo da chanceler


Hoje, a Alemanha se prepara para a saída de Angela Merkel. Seu partido acaba de eleger um novo líder, Armin Laschet, favorito para sucedê-la. Se triunfar, sua tarefa não será apenas comandar a maior economia europeia. Precisará se mostrar à altura da gigantesca tarefa empreendida pela atual chanceler.


O "fim da era Merkel" foi apontado pela consultoria Eurasia como um dos principais riscos para o continente em 2021.











E como foi a Era Merkel?


Em quase dezesseis anos no cargo, ela enfrentou diversas crises, uma atrás da outra: o baque no sistema financeiro global em 2008, as ameaças de dissolução da União Europeia, a grande onda migratória que marchou Europa adentro em 2015, a pandemia de covid-19, entre outras. Por isso sua popularidade, na Alemanha, oscilou bastante no decorrer dos quatro mandatos. Internacionalmente, ela se consolidou, ano após o outro, como principal líder da Europa.


No começo de seu primeiro mandato, a primeira-ministra parecia uma pessoa excessivamente lenta nas decisões. O tempo provou que ela era paciente, sim, mas decidida. Sob seu governo, a Alemanha se transformou na liderança incontestável da União Europeia.


Para atingir esse reconhecimento, ela foi obrigada a conciliar os pilares da União Europeia com mudanças importantes. No ano passado, abandonou a política histórica de austeridade fiscal alemã para abraçar um pacote de 750 bilhões de euros de ajuda para os outros países.

Sua habilidade em persuadir países como Polônia e Hungria a manterem a disciplina com gastos públicos e ao mesmo tempo se comprometerem com a democracia ajudou a afastar o risco de ruptura num bloco já estressado pelo Brexit. Também resistiu à ameaça representada por Donald Trump, que atacou a globalização e ironizou o próprio conceito de blocos econômicos, que chamou de ultrapassado.


O ex-presidente americano abandonou os tradicionais aliados americanos, inclusive a Alemanha. Mas mesmo nessa situação, Merkel soube administrar a ação populista de Trump com sua “real politik”, apostando na volta dos EUA à sua doutrina tradicional de fiador da segurança mundial — como volta a acontecer agora com o governo Joe Biden. Além disso, Merkel rejeitou a guerra comercial contra a China patrocinada por Trump ao referendar um acordo que amplia os investimentos europeus no gigante asiático.


Herança de Merkel


Sob o governo de Angela, a União Europeia passou por seus dois maiores testes. Podemos observar alguns de seus principais marcos na linha do tempo ao lado.

Um dos primeiros problemas que Merkel teve que enfrentar foi a falência da Grécia. A premiê se mostrou irredutível, para ela o país tinha que fazer ajustes fiscais antes de receber novos empréstimos.

Diante do tamanho da crise grega e dos altíssimos índices de desemprego, a postura da governante alemã soou intransigente. Barack Obama, então presidente americano, chegou a pedir a Merkel que reconsiderasse sua posição. Ela não abriu mão.


A alemã também teve papel fundamental diante do caos no Oriente Médio, causado pela intervenção americana desastrada no Iraque. Foi a líder determinante para a Europa abrigar os refugiados em 2015 e 2016, na maior crise migratória na Europa desde a Segunda Guerra. Mostrou uma visão humanitária e estratégica. Isso despertou pela Europa grupos populistas de direita, que usaram a xenofobia como plataforma política. Mas Merkel conseguiu conter as críticas internas e externas e se fortaleceu ainda mais internacionalmente. Por isso, foi escolhida pela revista “Time” como a “pessoa do ano”.


Na pandemia, que começou no final de 2019 com a expansão das contaminações causadas pelo novo coronavírus, convocou os alemães a adotarem medidas drásticas contra a doença em tom professoral e emocional — uma raridade para o que se sabia até então sobre seu modo de agir. Seu posicionamento é considerado uma prova final da força de seu legado. Sua popularidade disparou, acima dos 80%.


Uma outra dificuldade para o bloco europeu apareceu em 2016, quando o Reino Unido resolveu abandonar a União Europeia. E imediatamente, Merkel buscou apoio na França para manter a coesão.


No cenário interno, a primeira-ministra vem sustentando um período de crescimento da economia e modernização do parque industrial – foi a Alemanha um dos primeiros países a integrar a seu sistema produtivo as novas tecnologias, como a nanotecnologia e a inteligência artificial.


Resumão



Onde Merkel acabou errando e acertando?


Acertos

Melhorou a Alemanha

Sob sua gestão, o país gerou empregos, viu a economia crescer e aumentou as parcerias no exterior, em especial com a China;

Recebeu imigrantes

A Alemanha é o país mais aberto para palestinos, sírios e africanos perseguidos. Todos ganham casa e aprendem a falar o idioma local;

Manteve a União Europeia

Diante de momentos de dificuldades políticas e econômicas, a primeira-ministra conseguiu garantir a continuidade do bloco.

Erros

Começou mal

Em seus primeiros meses de mandato, diante de uma coalizão partidária frágil, a premiê parecia perdida e sem poder de decisão;

Defendeu a espionagem

Antes de os grampos realizados pelos EUA se tornarem públicos, Merkel argumentou pela investigação da vida privada na internet;

Atacou a união estável

O casamento entre pessoas do mesmo sexo só foi discutido depois que ela mudou de ideia sobre o tema – a princípio, era contra.


Autora: Thaísa Martins LinkedIn: Thaísa Martins | LinkedIn