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A história do "Cash for clunkers"

O que foi o “cash for cunklers”:

Primeiramente, para compreensão do programa cash for clunkers, é necessário entender o contexto da indústria automobilística americana na segunda metade dos anos 2000. À época, elas passavam por um momento difícil, com o mercado de automóveis do país em situação decadente, para se ter uma ideia, duas das três maiores montadoras dos EUA estavam recebendo auxílio do governo para que não fechassem as portas. Soma-se a esse cenário a crise de 2008, que complicaria ainda mais a situação do mercado em âmbito global.


Propaganda durante o Programa C.A.R.S. [Getty Images - Alisa Priddle]


Para solucionar essa situação, o economista keynesiano Alan Blinder propôs, via New York Times, um programa que facilitasse a troca de veículos antigos por modelos novos e mais econômicos, o programa foi batizado informalmente de “cash for clunkers” . O projeto em questão teria como agente o próprio governo dos Estados Unidos e consistia em um desconto (cash) considerável concedido àqueles que realizassem a troca, posteriormente ocorreria o descarte do veículo antigo(clunker) para que o mesmo não retornasse às ruas. Com isso, o programa ganharia além de tudo um caráter ecologicamente correto, substituindo grandes “gastões” de combustível por automóveis mais eficientes e, portanto, menos poluentes.


A ideia do economista ganhou ampla aceitação social e foi aderida por ambos democratas e republicanos. Posteriormente, foi proposto um projeto de lei denominado car allowance rebate system (C.A.R.S), sancionado por Obama. Os bônus oferecidos pelo programa variavam entre 2500$ e 4500$, dependendo dos carros negociados em questão e de critérios específicos para alcançar a redução de impacto ambiental(principalmente consumo médio).


O pontapé inicial do projeto foi dado no dia 01/07/2009, com data de encerramento prevista para o fim de novembro do mesmo ano. O orçamento inicial era de US$1bi.


Os resultados do programa:

Logo após iniciado, evidenciou-se que o programa tinha de fato feito com que as vendas de veículos novos disparassem. Tão grande foi o apelo popular desse projeto que, em menos de um mês, o governo americano adicionou mais US$2bi ao orçamento inicial. Em 20 de agosto o orçamento total de US$3bi já havia se esgotado e o fim do programa decretado.


Durante o período, os carros novos mais consumidos foram aqueles de baixo custo e alta eficiência. Notou-se também que muitos deles eram de marcas estrangeiras. Toyota (a montadora que mais vendeu), Honda e Hyundai, foram das companhias mais beneficiadas pelo programa (se comparado market share à época com as vendas dos veículos pelo programa).


Ademais, sobre a perspectiva dos carros usados, estima-se que cerca de 667.000 carros usados foram retirados de circulação mediante o programa. Entre eles, encontramos pickups e carros antigos de grande porte, majoritariamente de origem americana.

Com isso, afirma-se nos EUA que o projeto em questão acelerou a tomada das ruas por carros de marcas estrangeiras. Esse foi um dos resultados mais criticados, haja visto que o cash for clunkers visava, inicialmente, ajudar as companhias americanas. Mesmo os grandes polos de manufatura não foram tão beneficiados, apenas 49% dos veículos eram de produção nacional.


Naquele período houve uma significativa queda na oferta de veículos usados de baixo custo, esse fato atingiu principalmente os mais pobres, que não possuíam condições de adquirir um veículo novo (mesmo com o bônus descontado).


Sob uma perspectiva geral, o programa não foi significativo para a recuperação das companhias americanas e obteve um custo alto por posto de trabalho criado (algo em torno de US$1,4 m). Além disso, projeções feitas pelo instituto Edmunds concluíram que o programa apenas antecipou vendas que ocorreriam de qualquer forma, não modificando o montante de veículos vendidos no médio prazo. Economicamente, podemos dizer que o programa trouxe algumas vantagens para os Estados Unidos. Esses benefícios, porém, vieram a um alto custo para os contribuintes e de forma contestável.



Gráfico - projeção do Edmunds (aumento de vendas no curto prazo, queda no médio). - [Edmunds.com]

Tabela - top 10 veículos mais envolvidos em negociação (notória presença de estrangeiros). - Quartz [qz.com]


Do ponto de vista ecológico, o programa também obteve resultados significativos e controversos. Estima-se que com o descarte dos 667.000 veículos, o programa pode ter retirado da atmosfera aproximadamente 18 milhões de toneladas de CO2.


Novamente, porém, o custo surge como contraponto aos números desse projeto. O custo por tonelada de carbono foi de aproximadamente US$20. Comparações feitas com outras iniciativas (como benefício fiscal para companhias ecologicamente corretas e subsídios para carros elétricos), colocaram novamente em cheque a eficiência do programa.


Além disso, o problema trouxe também impactos negativos ao ambiente. O processo de inutilização de veículos, o acúmulo de metais em ferros-velhos, bem como a utilização de produtos químicos, traz danos consideráveis ao solo e ao organismo das pessoas envolvidas no processo.


Imagem 1- Ferro velho norte americano lotado na época do C.A.R.S [E-magazine]

É difícil afirmar se o C.A.R.S. foi um sucesso ou um fracasso. Colocando na balança os prós e os contras e considerando também a má repercussão, bem como as distorções causadas pelo projeto, pode-se dizer que o projeto partiu de uma ideia boa em um momento oportuno, sua execução no entanto não foi boa e deixou de considerar uma série de variáveis.


O possível retorno do “cash for clunkers”:

Atualmente, o cenário político-econômico norte-americano (e global) se assemelha em muitos aspectos com aquele de 2009. O mundo novamente saindo de uma recessão econômica (crise do covid-19) e, na tentativa de acelerar a recuperação, governos e bancos centrais têm adotado políticas expansionistas. O governo dos EUA especialmente, concedeu nos últimos tempos os maiores pacotes de estímulo de sua história (como pode ser visto em bidenomics).


Concomitantemente, a preocupação global com o meio ambiente está no centro do debate, sendo que o próprio presidente dos Estados Unidos teve nesta pauta um dos principais pilares de sua campanha. Sendo assim, carros elétricos surgem como possível solução para a emissão de gases de efeito estufa, demonstrando-se cada vez mais acessíveis e viáveis.


O governo Biden, em seu projeto de infraestrutura, prometeu adicionar 500.000 pontos de recarga públicos para veículos elétricos no país. Mas estima-se que ele possa ir ainda mais longe, tentando aumentar a propensão dos consumidores para aquisição de carros elétricos.


Uma das alternativas capazes de proporcionar tal aumento seria uma espécie de reedição do programa, um C.A.R.S 2.0. Não se sabe ao certo como o programa funcionaria, mas seu princípio seria o mesmo: conceder benefícios aos consumidores que trocassem seu veículo a combustão por aqueles movidos por energia elétrica.


Por fim, é importante que o governo americano aproveite o know how obtido pela primeira experiência, analisando a viabilidade do projeto bem como a melhor forma de executá-lo. Pontos como a aceleração do declínio das tradicionais montadoras americanas (que produzem majoritariamente carros a combustão), bem como alta nos preços dos carros usados, podem ser socioeconomicamente abalantes para os EUA.




Autor: Paulo Roberto Mattielo Filho | linkedin





Referências


[1] https://qz.com/1042742/why-did-cash-for-clunkers-fail-a-new-paper-explains-how-obamas-stimulus-program-backfired/


[2] https://www.investopedia.com/terms/c/cash-for-clunkers.asp


[3] https://emagazine.com/the-cash-for-clunkers-conundrum/


[4] https://iopscience.iop.org/article/10.1088/1748-9326/5/4/044003/meta