Tesouraria: Liquidez e Valor de uma organização



Tesouraria: Liquidez e Valor de uma organização


O que faz uma empresa quebrar? Empresas vão à falência? Conhece alguma empresa que faliu?


Para a maioria dos leitores jovens, a resposta das perguntas acima é nebulosa e até inexistente; dificilmente temos notícia de empresas pedindo falência e fechando as portas, pelo menos não as empresas grandes, listadas em bolsa.


Falência é comumente definida como a situação judicial na qual a empresa não tem condições de honrar seus compromissos e se faz necessário a liquidação de seus bens para satisfazer os credores. É a situação em que a empresa fica, no português mais popular, sem dinheiro para pagar as contas.


O detalhe mais importante da falência é que a empresa fica sem dinheiro para pagar as contas, o que não significa que a empresa não tenha dinheiro para pagar as contas.

Diante desta sutileza, é de se esperar a pergunta confusa “como uma empresa fica sem dinheiro para pagar as contas mesmo tendo dinheiro para pagar as contas?”


Bem, vamos ser um pouco mais técnicos e resolver este problema definindo melhor o que, no português cotidiano, chamamos de dinheiro.


Em finanças, ampliamos o conceito de “dinheiro” para “direitos e posses da empresa”, melhor chamando aquele de ativo. Ainda confuso? Segue o exemplo:


A empresa de refrigerante hipotética RefriMax tem:


1. Uma fábrica para sua produção no valor de R$ 15.000.000,00;

2. Estoque de refrigerante para venda no valor de R$ 200.000,00;

3. Dinheiro em caixa para qualquer eventual compra no valor de R$ 10.000,00.


Não é difícil perceber que as posses da empresa totalizam R$ 15.210.000,00, porém, se o dono quiser fechar a empresa e ter todo esse valor no bolso amanhã, conseguiria?


Liquidez é a facilidade de um ativo se tornar dinheiro sem perder seu valor. No exemplo acima, o dono da RefriMax consegue ter no bolso amanhã somente R$ 10.000,00. É necessário encontrar compradores e realizar a venda da fábrica e do estoque para conseguir transformar o valor de cada um em caixa (nome que as finanças dá para “dinheiro”).

Se ele tenta vender todas as posses (ou ativos) amanhã, é de se esperar que consiga um preço abaixo do valor justo, não totalizando R$ 15.200.000,00 e estando exposto, portanto a um risco de liquidez.


Em outras palavras, se amanhã houver alguma catástrofe ímpar (uma pandemia, por exemplo) e a RefriMax tiver que arcar com uma dívida de R$ 300.000,00, ficaria sem dinheiro para pagar as contas e declararia falência, mesmo valendo mais do que a dívida.


Na prática, há diversos outros fatores a se considerar e diversos outros aspectos que influenciam e impactam um pedido de falência. O objetivo lúdico até aqui é mostrar que uma empresa fale quando fica sem dinheiro, quando não tem liquidez, quando não tem caixa. A lição, nas palavras do mercado é que:

“Cash is King”

Para os entusiastas de mercado, vamos aprofundar no assunto trazendo o esquema de balanço patrimonial (“foto da empresa em uma determinada data”).


Figura 1: Diagrama Balanço Patrimonial


O Balanço sempre é escrito de maneira que os itens mais líquidos apareçam nas primeiras linhas e, por isso, compõe a parte dos ativos e passivos circulantes.


Para uma organização ser sustentável e resiliente, é necessário ter liquidez antes de rentabilidade. Não é a toa que o Beta de uma empresa (indicador de risco) comumente é calculado considerando a estrutura de capital da mesma.

Não entraremos no mérito de dissertar sobre o cálculo do Beta utilizando o Beta do Setor () e a composição de dívidas () e equity (), mas deixemos claro que quanto maior a participação da dívida na estrutura de capital, maior o Beta da empresa e, logo, maior o risco percebido pelo investidores.


Se a única variável impactando as finanças de uma empresa fosse liquidez, estaríamos diante de um problema simples de resolver: bastasse, literalmente, guardar dinheiro embaixo da cama; porém, sabemos que o dinheiro perde valor conforme passa o tempo e não é plausível deixar “dinheiro parado” em nenhum momento. Faz-se necessário sempre investir o excedente de caixa assim que possível.


Para tanto, aparece a figura da Tesouraria em uma organização. É a diretoria responsável por tratar do trade-off liquidez x rentabilidade: espera-se um retorno maior por uma liquidez baixa porque o risco de liquidez é maior.


Em poucas palavras, a rotina de uma tesouraria consiste no trabalho de Contas a Pagar e Receber apurando as principais movimentações do dia e passando para a área Caixa e Bancos, que modela as transações que devem ocorrer no dia e passa para a área Operações Financeiras, responsável por efetuar as transações, resgatando investimentos caso haja a necessidade de mais caixa líquido para o dia, ou investindo o excedente do caixa do dia anterior, negociando, claro, as taxas em cada investimento.


Isso pode ser visto no esquema presente na Figura 2, assim temos:


Figura 2: Rotina de uma Tesouraria


Ainda há outras áreas como Câmbio e Relação com Investidores que não serão consideradas neste texto, nem falaremos sobre captação de recursos através de emissão de produtos financeiros.


Como a liquidez é importante para a saúde financeira da organização, dificilmente uma Tesouraria conseguirá deixar investido o caixa sob uma rentabilidade alta, sendo mais comumente investimentos que retornam o CDI ou 99% do CDI. Para alguns dos produtos preferidos das tesourarias, temos:


Debêntures compromissadas;

CDB’s de grandes bancos;

Bonds.

O detalhe importante é que se busca investimentos em instituições sólidas e com a possibilidade de resgate a qualquer hora para arcar com os compromissos e imprevistos da organização e garantir o valor do dinheiro no tempo.


Uma Tesouraria, pois, é a responsável para garantir liquidez da instituição e, assim, gera valor para a mesma por dar a possibilidade de que investimentos orgânicos ocorram, isto é, investimentos para a melhoria da operação da empresa.


Ter liquidez é ser resiliente com eventos de cauda, responsável com os stakeholders e shareholders e referência no mercado: não é fácil garantir esta qualidade e, por isso, o valor de uma instituição é, claramente, percebido.

Autoria: Vinícius de Camargo (LMF São Carlos - USP e UFSCar)

Data de publicação: 11/07/2020

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