O que os BC’s estão fazendo para conter a recessão


Fonte: Rádio Cultura Fox


Em janeiro de 2020, muito se falava a respeito do positivismo do mercado diante do acordo comercial entre China e Estados Unidos, descrito como “revolucionário” pelo próprio presidente Donald Trump, dando fim às tensões econômicas da guerra comercial travada entre os dois países. Além disso, o mundo estava confiante em relação ao crescimento global da economia. Segundo o Fundo Monetário Internacional, previa-se um crescimento mundial de 3,3% e 2020 e de de 3,4% em 2021.

Entretanto, um pequeno surto iniciado na cidade chinesa de Wuhan ganhou maior protagonismo ao passo que o número de infectados aumentou substancialmente, causando inúmeras mortes. De modo a tentar conter a epidemia, a segunda maior economia mundial adotou algumas medidas restritivas: fábricas pararam, estabelecimentos foram fechados e viagens domésticas interrompidas. No entanto, com a globalização e a rápida disseminação do vírus, em pouco tempo, o que se iniciara no interior da China ultrapassou fronteiras e começou a circular mundialmente, passando a configurar uma nova pandemia, alarmando para uma eventual crise sanitária e, consequentemente, econômica.

A epidemia do Covid-19 disseminou-se globalmente, atingindo não apenas milhares de pessoas, mas afetando duramente toda uma cadeia de produção. Alemanha, Coreia do Sul, Itália e Estados Unidos, por exemplo, começaram a ter grandes dificuldades para obtenção de peças para seus componentes. Devido ao grande protagonismo da China no que tange ao comércio e produção, a paralisação de suas atividades afetou duramente toda uma sequência produtiva, gerando um “choque de oferta”. Bolsas dos Estados Unidos e da Europa atingiram perdas de 12%, valores não vistos desde a grande recessão de 2008. O temor tomou conta de todo o mercado financeiro, que começou a precificar uma recessão global.


Fonte: Folha UOL


Visando a preservação de vidas e a diminuição do número de contaminados, políticas sanitárias foram implementadas em todo o mundo: distanciamento social e a adoção da quarentena. O que se tinha visto apenas na China, com a paralisação de suas atividades, foi seguido no restante do mundo. Como consequência, teve-se a diminuição drástica do consumo, bem como de toda a produção mundial, além de elevadas taxas de desemprego, resultando em um choque de oferta e de demanda. Segundo Paola Subacchi, “em muitos países, o desemprego está em um nível recorde – mais de 20 milhões de pessoas nos Estados Unidos perderam os empregos somente em abril, elevando a taxa de desemprego para 14,7% e colocando-a no caminho para atingir 20-25% este ano”.

Projeções foram revisadas, apontando para uma retração do PIB mundial na ordem de 5%. Tal cenário fez que os Bancos Centrais agissem rapidamente, injetando maior liquidez na economia, de modo a conter o medo que alarmava todo o mercado. Nesse sentido, países com economias mais estáveis reduziram suas taxas de juros a patamares próximos a zero ou abaixo de zero. O Federal Reserve (Fed - banco central americano) cortou o juros para entre zero e 0,25%, em decisão extraordinária. Já o Banco Central Europeu (BCE) e o Banco do Japão (Boj) lançaram linhas emergenciais, além de expandirem programas para criar maior liquidez aos mercados de dívida corporativa e títulos comerciais. Enquanto isso, nos países emergentes, como o Brasil, houve redução de juros para mínimas históricas. Dessa forma, a taxa de política monetária global, correspondente ao juro médio de 97 bancos centrais do mundo, caiu 63 pontos-base apenas no primeiro semestre de 2020.



Fonte: Visual Capitalist


Nos Estados Unidos, além do corte de juros, o banco central acelerou compras ilimitadas de títulos. Aliado a isso, países desenvolvidos emitiram US$ 11 trilhões em títulos nos cinco primeiros meses de 2020. De acordo com o relatório divulgado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), tais emissões foram 70% maiores do que a média registrada no mesmo período nos últimos cinco anos.

Como divulgado no jornal El País, nos países emergentes, a injeção de liquidez se deu por meio da compra de dívidas públicas ou privadas a fim de se reduzir custos de financiamento de Governos e empresas. Colômbia adquiriu títulos públicos e privados, enquanto que o Chile comprou apenas papéis privados. Analogamente, o Brasil recebeu autorização do Congresso com a implementação do “orçamento de guerra” para comprar e vender títulos do Tesouro Nacional e títulos de crédito de empresas privadas no mercado secundário, quebrando a limitação do banco central apenas aos títulos públicos. Desse modo, seguindo a lógica das políticas de quantitative easing, teve-se como meta obter maior liquidez ao mercado de capitais. Rumando ao mesmo caminho de flexibilização quantitativa, países como Polônia, África do Sul e Turquia também adotaram tais medidas emergenciais. De acordo com Esteban Pérez, técnico da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal), os países emergentes adotaram a flexibilização antes mesmo de esgotar todos os instrumentos de política monetária que dispunham, não reduzindo, por exemplo, as taxas de juros a níveis próximos ou abaixo de zero. Entretanto, a adoção dessas medidas extraordinárias, segundo Pérez, foi tomada em linha com a realidade da região, muito diferente do contexto econômico de países desenvolvidos, que puderam realizar cortes mais bruscos em suas taxas de juros. Em países pouco atrativos para investimentos, como no caso dos emergentes, taxas de juros muito baixas provocam o deslocamento de capital dos mercados financeiros para países mais seguros, que configuram as regiões mais ricas e desenvolvidas.

No entanto, apesar das respostas rápidas dos Bancos Centrais no que diz respeito às políticas monetárias, segundo Blu Putnam, Diretor Geral e Economista-Chefe da Bolsa de Chicago, somente uma política fiscal “ajudará as economias a se reconstruírem mais rapidamente”, visto o número crescente de desemprego ao redor do mundo. Seu argumento é sustentado por Subacchi, professora de Economia Internacional na Universidade Queen Mary, alegando que a extensão da crise sanitária para a crise econômica e trabalhista faz com que seja necessária não apenas a atuação dos bancos centrais, mas, especialmente, fazer com que o dinheiro circulante chegue até à população mais necessitada, estimulando o consumo. Nesse contexto, nota-se que, além de uma política monetária eficiente, conduzida de forma eficaz e responsiva pelas principais autoridades, torna-se necessária a adoção conjunta de um impulso na política fiscal de modo a estimular a recuperação econômica, dando suporte à demanda doméstica em um cenário cujos dados de desemprego continuam preocupantes.



Autora: Andressa Katagay Miyazono (LMF São Carlos - USP e UFSCar)

Data da publicação: 08/09/2020




Referências:

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Países desenvolvidos emitiram U$S 11 Trilhões de títulos de janeiro a maio, diz OCDE.Valor Econômico. São Paulo, 21 Julho de 2020. Disponível em: <https://valor.globo.com/mundo/noticia/2020/07/21/pases-desenvolvidos-emitiram-us-11-tri-em-ttulos-de-janeiro-a-maio-diz-ocde.ghtml>. Acessado em: 05/09/2020.

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MUHLEISEN, Martin; GUDMUNDSSON, Tryggvi; WARD, Hélène Poirson. A resposta das economias de mercados emergentes à COVID 19: além das políticas convencionais. Valor Econômico. 05 de Setembro de 2020. Disponível em: <https://valor.globo.com/mundo/blog-do-fmi/post/2020/09/a-resposta-das-economias-de-mercados-emergentes-a-covid19-alem-das-politicas-convencionais.ghtm>. Acessado em: 06/09/2020.

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SUBACCHI, Paola. Os limites da radical política monetária da COVID 19. 10 de Junho de 2020. Disponível em: <https://exame.com/blog/opiniao/os-limites-da-radical-politica-monetaria-da-covid-19/>. Acessado em: 05/09/2020.



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