Explicaê 6.2 - Mais um ano perdido para a economia brasileira?



O ano de 2019 começou com fortes expectativas do mercado: previsão de crescimento de 2,5% no PIB, segundo a mediana do Boletim Focus, alta de 10% da bolsa apenas em janeiro e o alcance da marca histórica do Ibovespa a 100 mil pontos. Entre as fontes do otimismo estavam fatores políticos e econômicos. Do lado político, os agentes de mercado compraram o discurso liberal do governo Bolsonaro e apostaram na aprovação da reforma da previdência para ajustar as contas públicas - alguns ainda no primeiro semestre - e nomeação com critérios técnicos para o time econômico (presidência das estatais, Banco Central, Ministério da Economia e afins). Do lado econômico, estava a grande capacidade ociosa da economia aliada à baixa inflação e taxa de juros na mínima histórica, além do aumento da confiança de consumidores e empresários e a possibilidade da retomada do investimento estrangeiro uma vez aprovada a reforma da previdência.


Do ponto de vista global, o cenário não era dos melhores, mas de lá cá muitos indicadores melhoraram: o FED - banco central americano - dava sinais de não mais subir as taxas de juros este ano; a guerra comercial entre Estados Unidos e China começava a arrefecer, assim como as preocupações de uma recessão iminente na maior economia do mundo. Aliás, pelo contrário, o crescimento dos PIBs tanto chinês quanto americano apresentou sinais de aceleração.


Podemos ver esse sentimento por algumas manchetes e previsões para o ano:




Com tudo isso, o que poderia dar errado?

O gráfico abaixo mostra a projeção de crescimento do PIB de 2019 divulgado pelo Banco Central - que consulta periodicamente os economistas das instituições financeiras e publica os resultados semanalmente, no Boletim Focus:



Desde janeiro, a projeção do crescimento do PIB caiu pela metade, 2,5% para míseros 1,24% e há quem aposte que seja ainda menor. No que tange ao crescimento esperado para este ano, o Brasil foi do céu ao inferno. Como isso foi acontecer?

A economia brasileira sente os efeitos negativos da crise na Argentina, do corte na produção mineral após a tragédia de Brumadinho (MG), além do mercado interno desaquecido, e a falta de confiança para investir e por parte do consumidor, resultando em um PIB deprimente.


Segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), a indústria brasileira recuou 1,3% em relação a fevereiro e também em relação a março do ano passado, sendo o pior resultado desde o quarto trimestre de 2016. Esse péssimo resultado nos coloca em risco de uma recessão técnica, queda do PIB por 2 trimestres consecutivos: analistas estimam que o PIB tenha caído no primeiro trimestre deste ano - o resultado oficial será divulgado pelo IBGE no dia 30.


Parte desses números reflete a queda de 3,2% no trimestre das exportações de veículos automotores, devido à crise argentina que já reduziu pela metade o nível de importações de produtos brasileiros. Vale, também, o recuo do segmento de mineração.

Atrelado a isso, dados obtidos pela consultoria IHS Markit demonstraram que o mês de abril não apresentou melhoria de crescimento, tendo o Índice de Gerentes de Compras no mês o resultado mais fraco em seis meses.


Em relação à confiança dos investidores, o cenário mostra-se nebuloso. De acordo com a pesquisa realizada pelo Ibre (Instituto Brasileiro de Economia), a confiança do empresário caiu mais de 3 pontos desde janeiro, valor medido pelo ICE – Índice de Confiança Empresarial. Além disso, a demanda interna permaneceu em declínio, ligada às incertezas políticas no que tange às aprovações de reformas no Congresso, afetando, assim, a retomada da atividade econômica e do emprego.



Desde janeiro, os vários episódios envolvendo o governo Bolsonaro – dos mais esdrúxulos e banais à completa desarticulação política e com o Congresso, com os filhos do presidente caçando os próprios aliados (como o ex-ministro Gustavo Bebianno, o presidente da câmara Rodrigo Maia e até o vice-presidente General Mourão) – minaram

a confiança dos agentes de mercado na recuperação econômica e colocam em xeque a aprovação das reformas, essenciais para a resolução da crise fiscal brasileira.

Para o economista Claudio Considera, da FGV, “A economia está paralisada, em compasso de espera de uma resolução da situação fiscal, que é a reforma da Previdência”. Viviane Seda Bittencourt, também da FGV, acrescenta: “Uma alteração deste quadro parece estar condicionada à redução dos elevados níveis de incerteza política e econômica observados hoje no país”.

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