LMF São Carlos © 2014-2020 todos os direitos reservados

Explicaê 6.7: "Peso-Real", uma idéia sem lastro?



Na visita de Jair Bolsonaro à Argentina, ventilou-se a ideia da criação do “Peso-Real”, uma moeda única para o Brasil e a Argentina, cujo presidente é Mauricio Macri. Porém, o Banco Central disse não saber desses planos e, de acordo com Paulo Guedes, a ideia é, por enquanto, apenas “uma especulação”. No Brasil, a notícia da moeda única repercutiu de forma bastante negativa, chegando até mesmo a ser ridicularizada nas redes sociais, muito por conta do atual momento em que a Argentina está passando, de intensa crise econômica.

"Houve um primeiro passo para o sonho de uma moeda única. Como aconteceu com o euro lá atrás, pode acontecer o Peso Real aqui.", disse Bolsonaro a jornalistas, em Buenos Aires.

A ideia do “Peso-Real” é sustentada pela visão do euro como exemplo de sucesso de unidade monetária na União Europeia. O euro surgiu após a 2° Guerra Mundial e teve por finalidade tanto fortalecer a economia europeia quanto aumentar a sua competitividade a nível internacional, em contraposição à hegemonia econômica dos Estados Unidos da América e do dólar. Com a instituição do euro, criou-se o maior mercado interno do mundo.

Apesar desse sucesso, os países da zona do euro, tais como Grécia, Irlanda, Chipre, Portugal e Espanha, se mostraram impotentes ou até mesmo incapazes de enfrentar a recente crise mundial. Isso coloca o fato da unificação ter sido bem sucedida em cheque.

No contexto da UE e fugindo do senso comum, analisando as vantagens e desvantagens, quais seriam as reais implicações da criação do “Peso-Real”?


Começando pelas vantagens da unificação da moeda, a primeira delas seria sua Maior Estabilidade a partir da elaboração conjunta de políticas econômicas. Em relação ao setor externo, os problemas de balanço de pagamentos de cada país individualmente tenderiam a perder relevância. Além disso, políticas macroeconômicas entre Brasil e Argentina fortaleceriam ambos os países frente a vulnerabilidade financeira da América Latina, gerando outra grande vantagem da moeda única, o Ganho de Credibilidade e Reputação.

A Menor Exposição a Choques Externos também pode ser vista como uma vantagem. A adoção de uma moeda única levaria a uma redução da incerteza cambial, uma vez que a variabilidade de uma moeda conjunta em relação ao resto do mundo, quando comparada com a moeda de um país específico, tende a ser menor.

Por fim, tem-se como vantagens Maior Poder de Barganha a Credores Externos e Ganhos de Escala de Produção e Investimentos. Um bloco consolidado e com moeda única permitiria aos países membros aumentar e fortalecer suas posições nas negociações frente ao resto do mundo e, consequentemente, aumentaria a possibilidade de terem suas reivindicações atendidas.

Por outro lado, a grande desvantagem da moeda única se deve à Perda de Soberania e Autonomia sobre Políticas Governamentais. A adoção de uma moeda única representa uma renúncia ao uso de instrumentos clássicos de política econômica, em particular a política cambial, colocando a nacionalidade da moeda em um plano subalterno. Os países que partilham a mesma moeda devem seguir certos parâmetros macroeconômicos que limitam a possibilidade de incorrer em políticas monetárias, que deve ser de responsabilidade de um “banco central comum”, o qual ajustaria as taxas de juros a partir da média de desempenho dos países. Isso pode gerar um grande problema, porque no caso de uma das economias deslanchar, esta será puxada para baixo pelas demais. Um exemplo disso é a Alemanha, constantemente prejudicada pela decadência na Grécia, Portugal, Espanha e Irlanda.

A segunda grande desvantagem se deve aos Altos Custos de Transcrição Monetária, uma vez que a integração de duas moedas faz com que se deflacione a mais valiosa. No caso do Brasil e Argentina, é evidente que o real seria bastante prejudicado, por valer aproximadamente 11 vezes o peso argentino. Entende-se aqui o motivo da Inglaterra não querer se aventurar no euro. Entre as causas dos altos custos também está envolvido o planejamento do governo no médio e longo prazo, já que todo o sistema de precificação seria alterado.

A partir das análises das vantagens e desvantagens apresentadas e da atual situação em que o Brasil e a Argentina se encontram, pode-se dizer que, no momento, a unificação das moedas não seria uma boa ideia. Não há uma harmonização das políticas macro entre Brasil e Argentina, as taxas de inflação e de juros desses dois países divergem enormemente e faltam instituições supranacionais (como uma corte binacional), livre mobilidade de pessoas, integração financeira e fiscal, aspectos importantes antes de se concretizar uma unificação monetária.

Assim, fica claro que Brasil e Argentina não têm nada do necessário para sequer começar a pensar em uma moeda única, deixando evidente também uma ironia do presidente Jair Bolsonaro, que de um lado, ordenou a retirada do símbolo do Mercosul dos passaportes nacionais, mas de outro, defendeu a unificação monetária com a Argentina. Este é um dos motivos de alguns dizerem que essa proposta foi uma jogada de Bolsonaro, a fim de proporcionar a Macri um trunfo para a corrida eleitoral contra o partido de oposição que é de esquerda (ambos partilham de uma mentalidade de economia liberal).

51 visualizações