A Grande Aposta - Entenda o filme e a crise de 2008



Em 2015, os atores Christian Bale, Steve Carrel, Ryan Gosling e Brad Pitt estiveram um dos filmes mais elogiados pelas críticas do ano e indicado a 5 categorias do Oscar. Enquanto para a maioria dos agentes econômicas, o momento da crise dos subprimes foi uma situação de acúmulo de perdas, o roteiro do filme, adaptado de um livro homônimo, aborda o lado de poucos que conseguiram prever a bolha que estava se formando no mercado imobiliário e conseguiram acumular ganhos.


No Explicaê dessa semana, será abordada a crise que abalou o mundo em 2008 com o contexto do filme, cujo cartaz está presente na figura ao lado.


Primeiro é necessário explicar essa crise a partir dos anos 90 quando o mercado imobiliário americano se expande e, com a explosão da bolha da internet entre 2000 e 2001, os imóveis se fortalecem como porto seguro dos investimentos e o governo americano incentiva o crédito imobiliário através de exigências aos bancos privados e outras políticas públicas. A partir de então, os imóveis passaram a se valorizar e as instituições financeiras começaram a facilitar o crédito com a garantia do imóvel, mesmo para clientes com mau histórico de crédito - os clientes ninja (no income, no job, no asset). Esse tipo de crédito, de segunda linha, são os chamados subprimes.


Um dos protagonistas dessa crise e do filme foi a transferência de créditos hipotecários e, em especial, a figura dos CDO’s (Obrigação de Dívida Colateralizada), um instrumento financeiro de securitização de dívidas com garantias de recebimento. Esses CDO’s incluíam maus e bons pagadores que, juntos, somavam um risco baixo de calote com a premissa de que os ativos imobiliárias continuassem se valorizando. A matemática utilizada era simples: havia o risco de desvalorização de alguns imóveis, mas como o mercado imobiliário americano estava se valorizando, as garantias hipotecárias seriam suficientes para cobrir eventuais calotes. Para piorar a situação, alguns CDO’s estavam sendo vendidos dentro de outros CDO’s, aumentando a dependência desses ativos. Pode parecer simples entender, hoje, que esse cenário iria gerar um aumento na inadimplência e que, em um momento ou outro, o sistema iria entrar em colapso, mas se até as agências de riscos não interpretaram o momento dessa forma, os agentes financeiros, de forma geral, também não conseguiram enxergar.


No entanto, para quem assistiu o filme, sabemos que alguns viram esse movimento e se prepararam para a crise de 2008. Um desses personagens foi Michael Burry, que estudou os títulos hipotecários presentes em alguns CDO’s e decidiu apostar contra esse título. No mercado financeiro, é comum usar jargões como operar comprado ou vendido: operar comprado é quando você, basicamente compra um título e espera a valorização dele, enquanto operar vendido é uma estratégia em que você ganha quando o título se desvaloriza e, por ser comumente utilizada a curto prazo, geralmente é chamado de “short” (sim, o nome em inglês do filme vem exatamente da estratégia de apostar contra o mercado americano - The Big Short).


A forma com que Michael Burry encontrou para operar vendido, acreditando na desvalorização dos CDO’s foi a compra de um outro instrumento - os CDS. Esse instrumento funciona como um seguro de outros ativos e ele se valoriza quando o risco do ativo sobe, logo, com a bolha explodindo, os calotes seriam constantes, os ativos imobiliários se desvalorizariam e não cobririam as garantias, aumentando o risco dos CDO’s e, logo, valorizando os CDS a níveis altíssimos.


Como os CDO’s eram considerados pelas agências como triple A (maior nota que as agências podem dar a um ativo), o risco era considerado baixíssimo e os CDS poderiam ser comprados a um baixíssimo valor. No filme, é retratada até a estranheza de alguns bancos em verem agentes do mercado apostando contra o mercado imobiliário, setor considerado seguro e imune a quebras. Na figura abaixo, é mostrado um esquema de como a crise se alastrou pelo sistema financeiro.




Por fim, é importante destacar alguns pontos. O cenário da crise foi terrível para toda a economia mundial, foi considerada a maior crise desde a de 1929 e ainda tem impactos até hoje. A estratégia de operar vendido dos personagens do filme, no entanto, não foi a causadora desse colapso, mas demonstraram que poucos agentes econômicos com pensamento fora da manada conseguiram prever o que deveria ter sido previsto pelos grandes, o que serve de aprendizado, hoje, para mudanças nas análises de riscos e tomadas de decisão do mercado.


Autoria:

Bruno Almeida Moreno Santos

https://www.linkedin.com/in/brunoalmeidamoreno


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